Cerca de 88% de todo o volume de adubo utilizado no país é importado; aproximadamente 45% é proveniente de regiões de instabilidade geopolítica

Apesar do agronegócio ser um dos pilares da economia brasileira, o país segue com elevada dependência de fertilizantes importados. Segundo dados da ANDA (Associação Nacional de Difusão de Adubos), entre 80% e 90% dos fertilizantes consumidos no Brasil vêm do exterior, o que expõe a produção agrícola a riscos de oferta, preço e logística.
As entregas de fertilizantes ao mercado brasileiro somaram 49,11 milhões de toneladas em 2025, um volume recorde, segundo a ANDA. Deste total, 43,32 milhões de toneladas foram importadas, o equivalente a 88,2%.
O fertilizante é considerado essencial para a agricultura comercial. “Apesar do Brasil ser um dos principais países em termos de produção agrícola, nossa agricultura depende muito do volume de fertilizantes que vem de outros países”, afirma Bruno Fonseca, analista de insumos do Rabobank. Ele explica que, embora as plantas possam absorver nutrientes do solo e do ar, a produção agrícola em escala comercial exige suplementação extra para atingir os níveis de produtividade esperados.
No Brasil, os fertilizantes mais utilizados pertencem ao complexo NPK — nitrogênio (N), fósforo (P) e potássio (K). O potássio responde por cerca de 38% do consumo nacional, seguido pelo fósforo e pelo nitrogênio, com 33% e 29%, respectivamente. Culturas como soja, milho e cana-de-açúcar concentram mais de 70% dessa demanda.
O potássio é considerado o principal gargalo da produção interna. Aproximadamente 97% do potássio consumido no país é importado, segundo levantamento do Insper Agro. Diferentemente de regiões como Leste Europeu, como a Rússia e Bielorrúsia, e Canadá, onde a extração ocorre em depósitos mais acessíveis, as reservas brasileiras estão associadas a formações rochosas mais complexas, elevando os custos de produção e logística e tornando o produto nacional menos competitivo.
Para os fertilizantes nitrogenados, como a ureia, o fator determinante é o custo do gás natural, principal insumo do processo produtivo. O Brasil possui uma estrutura de gás mais cara e menos integrada do que grandes produtores globais, como a Rússia, que detém as maiores reservas do mundo e uma cadeia industrial consolidada, oferecendo nitrogenados a preços mais baixos no mercado internacional. Outras regiões, como o Oriente Médio, também são grandes fornecedores de nitrogenados para o abastecimento global, pela relação forte com o petróleo.
No segmento de fertilizantes fosfatados, grandes volumes são provenientes do Marrocos, Rússia e China.
Pontos de atenção do mercado
A dependência brasileira de fertilizantes importados torna o país particularmente sensível a fatores externos, com destaque para a geopolítica internacional e a variação cambial.
Segundo relatório do Insper Agro, o mercado de fertilizantes “conecta poucos países ricos em recursos minerais e energéticos a grandes produtores de alimentos. Desse modo, o mercado internacional de fertilizantes é estruturado como um oligopólio bilateral, regido por barganhas com equilíbrios variáveis conforme o poder de negociação entre compradores e vendedores”.
Os pesquisadores da instituição de ensino destacam que “aproximadamente 45% do fertilizante importado pelo Brasil em 2024 veio de países que possuem uma maior propensão à instabilidade política ou violência motivada por fatores geopolíticos, tais como Rússia, Bielorrússia, Israel, Nigéria, Turquia, e outros, em menor escala”.
Um dos exemplos mais emblemáticos ocorreu em 2022, com o início da guerra entre Rússia e Ucrânia. A Rússia figura entre os principais fornecedores globais de fertilizantes e é um parceiro relevante do Brasil nesse mercado. O conflito afetou cadeias de suprimento, elevou a percepção de risco e pressionou preços internacionais.
Naquele período, segundo dados do Rabobank, fertilizantes que custavam entre US$ 500 e US$ 600 por tonelada no porto brasileiro chegaram a ser negociados na faixa de US$ 1.200 a US$ 1.300 por tonelada. O movimento refletiu tanto a restrição de oferta quanto a instabilidade nos fluxos comerciais e financeiros associados ao conflito.
“A guerra mostrou de forma muito clara o quanto o Brasil está exposto à geopolítica”, afirma Bruno Fonseca, analista de insumos do Rabobank. De acordo com ele, desde então, eventos internacionais passaram a ser monitorados com maior atenção, dado o impacto direto que podem ter sobre os preços dos fertilizantes e, consequentemente, sobre os custos de produção agrícola no país.
Além da geopolítica, o câmbio é outro fator central nessa equação. Como grande parte dos fertilizantes consumidos no Brasil é importada e negociada em dólar, oscilações na taxa de câmbio afetam diretamente o custo de aquisição do produto. Em momentos de desvalorização do real, o produtor precisa desembolsar mais para comprar o mesmo volume de insumo.
“O efeito do câmbio é algo com que o mercado brasileiro já está acostumado. Quando o real se desvaloriza, o custo do fertilizante sobe, mesmo sem mudança no preço internacional”, explica Fonseca.



